Pac Alegre
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E Alegre se fez jovem
A falta de confiança na política não começará numa falha de comunicação?
A entrada efectiva de Manuel Alegre na corrida a Belém começou com as sondagens, nomeadamente a que dava o poeta à frente de Soares numa hipotética segunda volta contra Cavaco. Um segundo momento relevante aconteceu quando Pacman, a cara dos Da Weasel, banda farol do hip hop português, aceitou ser mandatário para a juventude de Alegre. Ao mesmo tempo que corria a notícia dos antigos amigos que subitamente deixavam de apoiar o autor de Trova do Vento que Passa.
Quem está por dentro da política considerará Pacman um fait divers pouco relevante. Até por não ser reconhecido como personalidade televisiva, como são Bárbara Guimarães, Moita Flores ou até o impactante José Maria Martins. Mas uma dúzia de notáveis do PS não valem, em termos de impacte mediático, o apesar de tudo discreto Pacman.
Não pretendo com isto deitar palpites sobre o sentido das palpitações dos eleitores. Quero apenas falar de como o mundo da política desconhece por completo tudo o que lhe seja exterior. A política recorre a personalidades mediáticas por considerar que o mundo mental dos eleitores se resume ao horário nobre das televisões. Triste engano. Em parte, a crise institucional em que mergulhámos resulta de uma falha de comunicação.
Ora a relevância da escolha de Pacman começa no facto de ser um músico popular, mas não televisivo. É uma figura fora do sistema e contra o sistema, como aliás mostram as letras dos Da Weasel. E Alegre não só se tornou uma figura fora do sistema. Por via do conflito com Soares, ele passou a ser visto como uma vítima do sistema. Pode captar o voto do descontentamento e enquadrá-lo num contexto onde a intensidade emocional está garantida. E, na gramática do mundo de hoje, a emoção é o sinónimo da verdade. Com Pacman, nasce ainda uma ponte entre o canto de protesto dos anos 60 e a música de protesto da geração actual. O mito actualiza-se e Alegre se fez jovem.
A reacção anti-sistema que domina o país passa pelo descontentamento económico, pela incerteza quanto ao futuro e mesmo pelas expectativas excessivas fabricadas a partir dos estilos de vida promovidos pela televisão. Mas o mais grave de tudo é a incapacidade dos actores políticos em ver o mundo além da grelha auto-referencial em que se movem. E, consequentemente, em comunicar reconhecendo nos outros (os cidadãos) a autonomia para produzir discursos próprios. Ou seja, em compreender que os mesmos cidadãos que se disponibilizaram para os sacrifícios tornaram-se mais exigentes em relação ao discurso e aos actores políticos. E quem souber explorar a porta aberta por esse défice...
Miguel Gaspar
e-mail: miguel.gaspar@dn.pt
NM
E Alegre se fez jovem
A falta de confiança na política não começará numa falha de comunicação?
A entrada efectiva de Manuel Alegre na corrida a Belém começou com as sondagens, nomeadamente a que dava o poeta à frente de Soares numa hipotética segunda volta contra Cavaco. Um segundo momento relevante aconteceu quando Pacman, a cara dos Da Weasel, banda farol do hip hop português, aceitou ser mandatário para a juventude de Alegre. Ao mesmo tempo que corria a notícia dos antigos amigos que subitamente deixavam de apoiar o autor de Trova do Vento que Passa.
Quem está por dentro da política considerará Pacman um fait divers pouco relevante. Até por não ser reconhecido como personalidade televisiva, como são Bárbara Guimarães, Moita Flores ou até o impactante José Maria Martins. Mas uma dúzia de notáveis do PS não valem, em termos de impacte mediático, o apesar de tudo discreto Pacman.
Não pretendo com isto deitar palpites sobre o sentido das palpitações dos eleitores. Quero apenas falar de como o mundo da política desconhece por completo tudo o que lhe seja exterior. A política recorre a personalidades mediáticas por considerar que o mundo mental dos eleitores se resume ao horário nobre das televisões. Triste engano. Em parte, a crise institucional em que mergulhámos resulta de uma falha de comunicação.
Ora a relevância da escolha de Pacman começa no facto de ser um músico popular, mas não televisivo. É uma figura fora do sistema e contra o sistema, como aliás mostram as letras dos Da Weasel. E Alegre não só se tornou uma figura fora do sistema. Por via do conflito com Soares, ele passou a ser visto como uma vítima do sistema. Pode captar o voto do descontentamento e enquadrá-lo num contexto onde a intensidade emocional está garantida. E, na gramática do mundo de hoje, a emoção é o sinónimo da verdade. Com Pacman, nasce ainda uma ponte entre o canto de protesto dos anos 60 e a música de protesto da geração actual. O mito actualiza-se e Alegre se fez jovem.
A reacção anti-sistema que domina o país passa pelo descontentamento económico, pela incerteza quanto ao futuro e mesmo pelas expectativas excessivas fabricadas a partir dos estilos de vida promovidos pela televisão. Mas o mais grave de tudo é a incapacidade dos actores políticos em ver o mundo além da grelha auto-referencial em que se movem. E, consequentemente, em comunicar reconhecendo nos outros (os cidadãos) a autonomia para produzir discursos próprios. Ou seja, em compreender que os mesmos cidadãos que se disponibilizaram para os sacrifícios tornaram-se mais exigentes em relação ao discurso e aos actores políticos. E quem souber explorar a porta aberta por esse défice...
Miguel Gaspar
e-mail: miguel.gaspar@dn.pt
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