"Para quem escrevem os jornalistas?"
Dos leitores
Que consciência têm os jornalistas dos destinatários das suas mensagens?
Para quem escrevem os jornalistas? Quem são os verdadeiros destinatários das imagens, das notícias, das crónicas?
Na rotina básica das redacções, a resposta a estas perguntas tem três variáveis possíveis. Uma é quantitativa as audiências. A segunda consiste na percepção dos jornalistas sobre os gostos do público. A terceira decorre dos estudos mais aprofundados quanto às preferências dos leitores, ouvintes ou telespectadores.
Qualquer das três respostas tem limites. A primeira mede apenas números relativos a mudanças de comportamento - comprar este jornal ou ver aquele programa de televisão - dos destinatários. Como é quantitativa, gera a ilusão de representar verdades matemáticas, indiscutíveis. E leva-nos a trocar o longo prazo pelos resultados imediatos.
A segunda traduz-se, de um modo geral, no preconceito de que o público só tem interesse por coisas básicas e não quer saber de assuntos difíceis. Desde logo validando o argumento de que abordar assuntos sérios leva ao fracasso e vice-versa.
A última é a mais eficaz. Mas em quantos casos os media possuem a capacidade (e uma estrutura) para interpretar e tornar operativos os resultados de inquéritos de opinião mais profundos do que a audimetria, como os grupos de foco? A diferença entre ambas é que, na primeira, os destinatários são números. E, na segunda, pessoas que falam.
Uma extraordinária invenção do século XX, o correio electrónico, permite aos jornalistas ir mais longe. Neste segundo período em que esta crónica de televisão conheceu periodicidade diária (e, agora, em virtude de novas funções que desempenharei neste jornal, passará a ter periodicidade semanal, em dia ainda a definir), dizia eu que o mais grato deste período foi o diálogo regular com os leitores que o correio electrónico permitiu.
Na crítica, no elogio ou na correcção de erros, esse diálogo dá ao jornalista um acesso totalmente novo à forma como aquilo que escreve é lido. Mesmo que nem sempre seja agradável - e os jornalistas não são diferentes ninguém gosta de ser criticado ou atacado. A grande diferença é que, com ferramentas como esta (mais do que com a velha carta) os jornalistas e os leitores falam. Seja o que for que digam, estabelece-se uma interactividade ou, melhor, uma intersubjectividade. Evidentemente, essas mensagens só hipoteticamente representam um universo quantitativo mensurável; mais importante do que isso é o jornalista ter consciência da relatividade do monopólio da palavra que ainda detém.
Miguel Gaspar
e-mail
miguel.gaspar@dn.pt
Que consciência têm os jornalistas dos destinatários das suas mensagens?
Para quem escrevem os jornalistas? Quem são os verdadeiros destinatários das imagens, das notícias, das crónicas?
Na rotina básica das redacções, a resposta a estas perguntas tem três variáveis possíveis. Uma é quantitativa as audiências. A segunda consiste na percepção dos jornalistas sobre os gostos do público. A terceira decorre dos estudos mais aprofundados quanto às preferências dos leitores, ouvintes ou telespectadores.
Qualquer das três respostas tem limites. A primeira mede apenas números relativos a mudanças de comportamento - comprar este jornal ou ver aquele programa de televisão - dos destinatários. Como é quantitativa, gera a ilusão de representar verdades matemáticas, indiscutíveis. E leva-nos a trocar o longo prazo pelos resultados imediatos.
A segunda traduz-se, de um modo geral, no preconceito de que o público só tem interesse por coisas básicas e não quer saber de assuntos difíceis. Desde logo validando o argumento de que abordar assuntos sérios leva ao fracasso e vice-versa.
A última é a mais eficaz. Mas em quantos casos os media possuem a capacidade (e uma estrutura) para interpretar e tornar operativos os resultados de inquéritos de opinião mais profundos do que a audimetria, como os grupos de foco? A diferença entre ambas é que, na primeira, os destinatários são números. E, na segunda, pessoas que falam.
Uma extraordinária invenção do século XX, o correio electrónico, permite aos jornalistas ir mais longe. Neste segundo período em que esta crónica de televisão conheceu periodicidade diária (e, agora, em virtude de novas funções que desempenharei neste jornal, passará a ter periodicidade semanal, em dia ainda a definir), dizia eu que o mais grato deste período foi o diálogo regular com os leitores que o correio electrónico permitiu.
Na crítica, no elogio ou na correcção de erros, esse diálogo dá ao jornalista um acesso totalmente novo à forma como aquilo que escreve é lido. Mesmo que nem sempre seja agradável - e os jornalistas não são diferentes ninguém gosta de ser criticado ou atacado. A grande diferença é que, com ferramentas como esta (mais do que com a velha carta) os jornalistas e os leitores falam. Seja o que for que digam, estabelece-se uma interactividade ou, melhor, uma intersubjectividade. Evidentemente, essas mensagens só hipoteticamente representam um universo quantitativo mensurável; mais importante do que isso é o jornalista ter consciência da relatividade do monopólio da palavra que ainda detém.
Miguel Gaspar
miguel.gaspar@dn.pt

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